American Gods – 1ª Temporada | Crítica

American gods, de Neil Gaiman, é uma daquelas histórias que os fãs passam anos esperando uma adaptação pro cinema / TV, sempre recebendo notícias bombásticas de que tal emissora estaria interessada em comprar os direitos ou que o Autor esteve conversando com alguém sobre uma possível adaptação sem que nunca, de fato, isso aconteça. Após 16 anos do lançamento do livro, a Starz, o canal de tv paga americano responsável pela série Spartacus, finalmente tirou o projeto do papel e no dia 30 de abril de 2017 trouxe o primeiro episódio da adaptação.

A trama acompanha Shadow Moon (Ricky Whittle), um ex-presidiário que começa a trabalhar como guarda-costas de um deus antigo que quer começar uma guerra com os novos. Sempre temos o ponto de vista de Shadow, que geralmente está muito confuso e sem compreender o que está acontecendo, deixando o espectador na mesma situação.

A série utiliza muito de deidades de mitologias não muito difundidas no mundo moderno. Da Etiópia aos reinos Eslavos, do oriente médio ao antigo Egito, mitos de todos os lugares são trabalhados aqui. Todavia, seguindo fielmente o aspecto inebriante do livro, a série não perde tempo explicando a histórias dessas divindades antigas, deixando por conta do espectador o conhecimento prévio ou a pesquisa subsequente ao episódio assistido

Mostrando a que veio logo de cara, o primeiro episódio dita como será o decorrer da trama por toda a temporada, tanto no aspecto narrativo quanto no visual.. Logo na primeira cena somos apresentados ao conceito de que os Deuses da Europa, Ásia e África vieram para a América na cabeça das pessoas e permaneceram vivendo aqui; informação que no livro só é passada na segunda metade, mas que foi assertivamente adiantada na série. Seja no início do episódio ou no meio, há sempre a inserção de mini-histórias que visam aprofundar a situação dos Deuses no novo mundo, tendo como um dos pontos altos o Jesus Mexicano mostrado no início do sexto episódio.

O primeiro contato que temos com os personagens principais conseguiu captar toda a sensação que o livro passa, a total confusão de Shadow em contraste com o mistério que é Wednesday (Ian Mcshame). Shadow moon, ao contrário do que se espera de um protagonista, é um personagem reservado, taciturno e sem um pingo de carisma, tudo muito bem representado por Ricky Whittle, que mostra seu talento nas poucas cenas em que Shadow brilha; Enquanto Ian McShame alterna entre um velhinho que não consegue nem contar as notas da própria carteira e um malandro estelionatário que age como uma víbora pronta a dar o bote.

A química dos atores e dos personagens é muito bem trabalhada, com longos diálogos no carro que servem para o autor dar vazão ao seu ensaio sobre a fé humana e desenvolver os protagonistas. Numa escolha que agrada os fãs do livro, mas que faz mal para o ritmo da série, diálogos inteiros foram transcritos para o texto da série exatamente da mesma forma como eram no livro, causando um estranhamento em certas partes.

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Numa decisão tomada para alongar a série e permitir 3 temporadas de 8 episódios, foi criado um segundo núcleo para a trama, composto pela esposa morta Laura Moon (Emily Browning) e o leprechaum brigão Mad Swenney (Pablo Schreiber). Ambos são personagens importantíssimos para o desenrolar da história do livro, mas apenas com aparições chaves que não tiram o foco de Shadow e Wednesday.

Essa foi uma das poucas escolhas que levou a série para longe da essência do livro, todavia tais sacrifícios são necessários para o ritmo televisivo. Se perdemos um pouco do foco na interação dos protagonistas, ganhamos dois coadjuvantes de peso com excelentes interpretações e uma química até maior do que a apresentada por Shadow e Wednesday até então.

Passado os dois primeiros episódios, que servem basicamente para apresentar os personagens e o teor da história, passamos a acompanhar Shadow e Wednesday numa viagem pelos estados unidos onde eles visitam e tentam recrutar outros Deuses antigos para a guerra que planejam; enquanto Laura e Mad Swenney buscando por shadow e por uma maneira e ressuscitar a defunta.

Há, novamente numa escolha visando o ritmo televiso muito diferente do literário, uma inserção constante dos antagonistas que tinham aparições ocasionais no material original. Tecnoboy (Bruce Langley), Midia (Gillian Anderson) e Mr. World (Crispin Glover) são os novos Deuses apresentados até então. Todos mantém o nível de atuação lá em cima, com Bruce Langley interpretando um adolescente odioso, Crispin Glover fazendo o papel de líder calculista e Gillian Anderson brilhando nas diversas aparições da mídia.

Há quem reclame da falta de informações e que ficou perdido na história, porém é exatamente a isso que a série se propõe. Tudo o que é necessário para a compreensão da trama é apresentado logo no primeiro episódio, o que foi feito na semanas seguintes foi apenas mastigar um pouco mais para o telespectador desatento. Vemos isso nítido no personagem Wednesday, que se apresenta assim no primeiro episódio porque, segundo ele, quarta feira é seu dia; e nos episódios subsequentes as pistas de sua verdadeira identidade são cada vez mais óbvias, ao ponto de que no último ele berra seu verdadeiro nome a plenos pulmões.

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Alheio àqueles que não são o público alvo, a série se desenrola sem maiores defeitos até a reta final. O sétimo episódio que deveria ser a preparação pro conflito da temporada, numa decisão que quebrou todo o ritmo construído no episódio anterior, se passa quase totalmente em flashbacks relacionados a Laura e Mad Swenney e, nas poucas cenas ambientadas no presente, o foco continua no núcleo secundário. Apesar de ser um bom episódio, que aprofunda a relação entre os dois e torna os personagens mais trabalhados, está completamente deslocado da trama.

O último episódio chegou com a responsabilidade de fazer o que o anterior não tinha feito e ainda ser o final que a temporada merece. Cumpriu o papel de apresentar o conflito esquecido por seu antecessor, mas deixou para que o mesmo ocorre-se no próximo ano. Da mesma forma, esse é um episódio muito bom, mas que não entrega o que deveria. Quem já teve contato com o livro sabe que nas 20 páginas a frente do último evento narrado na série seria o conflito perfeito para o fechamento de uma primeira temporada, certamente a Starz prejudicou a obra ao escolher deixar esse conflito para a segunda temporada.

American Gods se mostrou uma excelente adaptação, que, na maioria das vezes, só acrescenta coisas boas que somam com a trama, raramente se afastando da essência do material original. Se Deuses precisam de pessoas que acreditam neles para que eles existam, essa Série precisa de espectadores que acreditem no potencial do material original, que se continuar sendo abordado dessa maneira trará um desfecho mais do que satisfatório para a trama. Resta agora esperar um ano, torcer para que a empolgação do público não esfrie e para que a Starz tome decisões mais assertivas com ao ritmo que segunda temporada terá.

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Por: Caio Gelmo

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