A Torre Negra | Crítica

“O homem de preto fugia pelo deserto e o pistoleiro ia atrás”.

A frase que define a história dos 7 (principais) livros da Torre Negra. O universo narrativo de Stephen King que ressoa em outros livros e que ele escreveu desde os 19 anos, com o objetivo de ser um “Senhor dos Anéis”, que misturasse fantasia, ficção-científica, horror e western, em um complexo épico envolvendo diversos personagens e tramas, mas que podem ser sintetizados na essência da frase que abre o primeiro livro: “O homem de preto fugia pelo deserto e o pistoleiro ia atrás”.

O filme, dirigido por Nikolaj Arcel (com roteiro do mesmo e mais três pessoas), não captou essa essência. Não quero acusar o filme de ser uma péssima adaptação, pois os envolvidos no projeto (até o King) enfatizaram que o enredo do filme não seria baseado exclusivamente no primeiro livro da série, chamado O Pistoleiro (lançado em 1982). O objetivo do filme seria contar uma história que fosse algo entre um apanhado de coisas dos livros e uma sequência da saga. Não faz uma coisa, nem outra. Vamos chegar lá.

Como falei, o primeiro livro da série foi lançado no começo da década de 1980 e o King levou quase 30 anos para completar a complexa história com 7 livros. Ele quase morreu (foi atropelado por uma van) antes de terminar os livros e afirma que essa experiência foi um impulso que faltava para finalizar a história de Roland Deschain e seu ka-tet (grupo de amigos/companheiros pistoleiros ligados profundamente pelo Ka, o que pode ser definido rusticamente como “destino”).

A saga da Torre Negra é extremamente vasta, que conecta praticamente todos os livros de Stephen King (dá uma olhada nesse complexo fluxograma que apresenta as conexões das obras do King). Nos 7 livros principais, a história se passa no chamado Mundo Médio e também na nossa realidade. Roland Deschain, o último da linhagem dos pistoleiros de Eld (descendentes de Artur Eld, um reflexo do nosso Rei Artur), tem como objetivo proteger a Torre Negra e matar o Walter das Sombras, o homem de preto. Esse personagem aparece em vários livros do King, com nomes diferentes, mas vilanias parecidas. A função do homem de preto é impedir que Roland alcance a Torre Negra. Temos também o menino Jake Chambers, que aparece e cai no vazio no primeiro livro, dizendo para Roland uma das frases mais impactantes de toda a saga:

“Vá então. Há outros mundos além deste”.

Essa frase também funciona como elo entre todos os livros da Torre Negra.

Ao longo de 7 livros, Roland e Jake se juntam com mais 3 companheiros (Eddie, Susanah e Oy) e se aventuram entre o Mundo Médio e a nossa realidade, encontrando até mesmo o próprio Stephen King no último livro (sim, o autor da saga é um dos personagens essenciais). Eu devorei os livros em um pouco mais de um ano e posso afirmar que foi uma das melhores coisas que eu já li. Tenho o símbolo do Ka tatuado. Resumindo, é uma história importante para mim.

Nesse mundo de adaptações cinematográficas de livros, A Torre Negra não ficaria de fora, ainda mais que os livros de Stephen King foram e são amplamente desejados na seca de boas ideias para o cinema. O projeto de adaptação da obra não é recente, desde o começo dos anos 2000, e já passou pelas mãos de J. J. Abrans e Ron Howard. A partir de 2015, a Sony Pictures assumiu o projeto e colocou o diretor Nikolaj Arcel como responsável por essa tarefa no mínimo espinhosa.

Acho que toda a produção desse filme foi complicada. Passou por refilmagens, o trailer vazou antes da hora, o marketing foi bem atrasado e, na minha opinião, bem fraco. Teve a polêmica do Idris Elba interpretar o Roland, já que Roland é branco de olhos azuis. Não me importo nenhum pouco com isso, ainda mais que o Idris Elba é um dos melhores atores em atividade e a interpretação dele é uma das poucas coisas boas do filme. O homem de preto é interpretado pelo ganhado do Oscar Matthew McConaughey. Nesse caso eu esperava mais. No entanto eu entendo que a atuação caminha junto com o roteiro e as falas do homem de preto são muito caricaturais. Transformaram ele em um vilão completamente unilateral. Todas as nuances do personagem, que repito é um dos melhores criados pelo King, foram eliminadas no filme.

Agora eu retomo o começo da minha crítica. Quando eu vi o primeiro trailer do filme, disse que se a primeira frase não fosse “O homem de preto fugia pelo deserto e o pistoleiro ia atrás” eu já ficaria extremamente decepcionado. Foi o que aconteceu. Essa frase é dita sim, logo após a cena de abertura do filme, que não tem nada do home de preto fugindo pelo deserto com o pistoleiro o perseguindo.

Isso pode ser “chatice” de fã? Sim, mas como eu disse lá atrás, essa é a essência da saga. O filme não transmite isso. O filme não tem essência. O filme não sabe o que quer. É uma sequência das histórias dos livros? É um “compilado” dos três primeiros? É algo inteiramente novo, mas com os mesmos personagens e o mesmo cenário?

O filme apresenta muitos outros problemas, que poderia escrever um texto só deles. Até as cenas de ação (o que seria a salvação do filme, se formos ao cinema pelo puro prazer do entretenimento) não são lá essas coisas. A cena do tiroteio no “bar”, apesar de muito bem-feita, não é melhor que a já clássica cena do Matrix em que Neo e Trinity acabam com um bando de soldados. Outra coisa “boa”, mas que não é suficiente: os easter eggs (referências) de outros filmes baseados na obra do King e dos livros da Torre Negra (que não são explicados no filme). Mas eu não vou ver um filme só para procurar referências de outros filmes, certo?

Resumo da ópera: o filme, pensado exclusivamente como filme, é fraco. Quando pensamos nele como uma adaptação de obra literária, o resultado é ainda pior. Talvez a única coisa que podemos tirar de bom desse filme é que mais pessoas terão a oportunidade de saber que o filme é baseado em livros do Stephen King e, com um pouco de vontade (e tempo), algumas dessas pessoas irão atrás para ler a saga e realmente descobrir se o pistoleiro consegue alcançar o homem de preto e o que (ou quem) se encontra na Torre Negra. Esse é o meu desejo.

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Por: Rui Dias

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